domingo, 5 de julho de 2009

Um pouco de história pra você


No dia 5 de julho de 1924 comemorava-se o segundo aniversário do episódio conhecido como “18 do Forte”, quando jovens oficiais do exército, ao final de uma rebelião no Forte de Copacabana, marcharam contra as tropas legalistas que os cercavam quase num sacrifício público. Em verdade nem todos eram militares, mas o evento - que passou a ser conhecido pela tal nome - tornou-se um marco no chamado “movimento tenentista”, uma tentativa de reformar a nação e modernizá-la atravé sda intervenção de jovens militares ilustrados oriundos das camadas médias da população.
Apesar de desbaratado o levante ele se tornou um referencial aos tenentistas e, no 5 de julho de 1924, foi a vez de militares da cidade de São Paulo se rebelarem. Os revoltosos, liderados por homens como Joaquim e Juarez Távora, Miguel Costa, Eduardo Campos e João Cabanas, tomaram postos fundamentais na cidade e exigiram a entrega do cargo de governador do estado por Carlos de Campos.

Diante da recusa deste bombardearam o Palácio dos Campos Elíseos, sede na época do governo. Mas nem Campos renunciou nem os rebeldes conseguiram manter sua posição. Tropas federais passaram a bombardear São Paulo e a nascente aviação brasileira colaborou, espalhando terror por bairros operários como a Moóca.

Diante da situação os rebelados fugiram para o interior do estado, se estabelecendo em Bauru.

Aproximadamente um mês após o início do movimento os revoltosos - após sofrerem uma terrível derrota ao atacarem a cidade de Três Lagoas no Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul) - fugiram para o Rio Grande do Sul, onde incorporaram Luiz Carlos Prestes e seus homens, dando origem a famosa “Coluna Prestes”, um dos mais longos movimentos de guerrilha da história brasileira.

O desejo dos rebeldes de 1924 era fundado nas propostas de 1922: modernização do Brasil, reformas eleitorais, investimento em ensino e outras medidas que visavam colocar o Brasil menos distante das nações ditas “civilizadas”. Na realidade tanto o movimento tenentista como outras manifestações daquele começo de anos 20 - como o movimento Modernista - eram fundamentados num desejo de “modernização”, o que implicava em alguma medida no rompimento com o passado brasileiro. Esse rempimento era visto de modos diversos, indo desde a recusa quase que completa até a idéia de “antropofagia”. A movimentação política possuía um forte caráter estético tanto quanto a arte possuía um forte caráter político. Uma movimentação concentrada na classe média - ainda mais restrita naquela época -, um desejo de criar uma sociedade “projetada”, “teorizada” em boa medida.

Os governos oligarquicos significavam para esses homens “modernistas” um entrave difícil de ser ultrapassado de modo legal, democrático, inclusive pelo fato de todo o Estado Brasileiro ser organizado a partir de regras construídas por eles próprios. Daó a recorrência ao uso das armas, refletindo também uma visão romântida da “revolução” que imperava desde a disseminação - parcial - dos bastidores da Revolução Francesa de 1789.

Apesar da Revolução de 1924 ter sido “esquecida” - tanto que carrega ainda esse apelido - ela teve um papel importante na configuração da movimentação política na década de 1920 e teve desdobramentos durante muitos anos.

Mas um aspecto é particularmente curioso: mesmo sendo o conflito que mais atingiu a cidade de São Paulo em sua história, mesmo sendo a única situação na qual a cidade foi bombardeada (nem em 1842, na Revolução Liberal, nem em 1932, na Revolução Constitucionalista a cidade chegou a ser bombardeada), ela foi “esquecida”. Porque?

Como se pode esquecer desse movimento mesmo com bairros como Perdizes e Moóca sendo bombardeados?

Penso que existem vários motivos: o primeiro deles é justamente a formação social do movimento, com pouca adesão das camadas populares, diferentemente de 1932, quando houve uma mobilização popular significativa no estado de São Paulo. Em segundo lugar pelo fato de revelar um passado político que não interessava a muitos “ex-revoltosos”, membros do governo desde que Getúlio Vargas assumiu a nação após a Revolução de 1930. Talvez, também, por ter sido realmente um episódio traumático para a cidade.

O fato é que ocorreu uma concorr~encia de fatores, uma “engenharia da memória” que levou 1924 a se tornar a Revolução “Esquecida”, apesar de sua importância, exemplo que ilustra de modo bastante singular o quanto o passado - intermediado pela memória - pode ser “modelado” e o quanto é “escorregadio”.

Rodrigo Silva
Rodrigo Silva é um historiador aventureiro, que viaja pelo Brasil descobrindo o que esse país tem de melhor, nem que seja embaixo da terra!

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